SB 1070: Uma reflexão inicial sobre o impacto da controversa lei imigratória do Arizona
Traduzido por Juliana Lima
Manifestantes favoráveis à lei SB 1070 protestam em Phoenix, Arizona
Nota do editor: Por meio de uma
parceria com a New American Media,
a primeira e maior rede nacional de
colaboração – e apoio – de 2000 organizações
de notícias étnicas, o Tribuna
é capaz de trazer aos seus leitores
uma narrativa em primeira mão do
impacto da controversa legislação SB
1070 do Arizona nas comunidades de
imigrantes do estado.
A SB 1070 foi aprovada pela Governadora
do Arizona Jan Brewer
em abril. Ela foi desafiada por diversos
processos trazidos por policiais,
a ACLU e outros grupos de direitos
civis, assim como o Departamento de
Justiça dos EUA.
Dominic Chavez, 1, acompanha sua mãe, Monica, e outros manifestantes
Críticos argumentam que a lei é
inconstitucional porque pede que o
estado do Arizona assuma o papel do
governo federal na execução da lei da
imigração. Eles também argumentam
que a lei vai aumentar a incidência de
discriminação racial pela polícia.
O que vem a seguir é uma reimpressão
de uma reportagem do La
Opinión, feita por Valeria Fernández,
traduzido para o inglês por Elena
Shore e para o português por Juliana
Lima.
Amparo de Paredes enche um balde gigante com garrafas de água enquanto um grupo
de garotas correm pela casa, brincando com dois cãezinhos adotados.
Elas não são suas filhas, mas nesses dias parecem ser, especialmente desde que suas mães foram presas pelo Departamento de Polícia do Condado de Maricopa em duas batidas policiais na cadeia de restaurantes Sizzler’s, em 12 de junho.
“Não tenho filhos, mas me comove ver o que está acontecendo”, diz Amparo, uma imigrante da Guatemala de 52 anos.
Enquanto centenas de famílias imigrantes deixam o estado dias antes da implementação da nova lei, SB 1070, que transforma em crime estadual ser indocumentado, aqueles que ficam vivem na incerteza.
“Isso vai acontecer, a lei entre ou não em vigor. Haverá mais crime. Não posso ligar para a polícia; se eu chamar a polícia, sou um dos que vão perder, não o criminoso”, diz Omar González, pai de quatro das garotas e nativo de Retalhuleu, Guatemala.
Blanca, sua esposa, queria ficar até o último minuto, esperar até 29 de julho, data em que a lei entra em vigor. Caso contrário, o plano era se mudar para Los Angeles, Califórnia. Eles tinham medo de ser presos na rua, mas nunca pensaram que ela seria presa no meio de um dia de trabalho, no restaurante onde trabalhava há 10 anos.
“É inútil. É estúpido o que eles estão fazendo, porque não estão protegendo a cidade ao chutar dos seus empregos pessoas que trabalham duro”, diz Gonzales, 40. “Eles estariam protegendo o país se prendessem as pessoas que vendem drogas nas ruas”. Gonzalez culpa a administração Obama pelo que está acontecendo no Arizona.
“Há quantos anos esse homem negro é presidente, e houve mais deportações que no governo Bush. O que ele está fazendo? Nada. Quando aprovar a reforma na imigração era importante, ele concentrou em aprovar a reforma no sistema de saúde”.
A casa de Amparo se tornou um ponto de encontro da vizinhança e, nesta tarde, dezenas de pessoas estão chegando a pé para uma reunião do movimento PUENTE, onde serão educados sobre seus direitos civis.
“Quantas pessoas aqui são ilegais?”, pergunta Alma Mendoza, uma imigrante mexicana que lidera grupos de bairro na região.
Algumas levantam suas mãos timidamente.
“Quantos aqui são imigrantes?”, ela pergunta. Outros respondem. Mendoza diz para eles “Não somos ilegais. Não somos indocumentados. Somos seres humanos”.
Mendoza relembra aos convidados que, em 29 de julho, eles pedem a todos para não ir ao trabalho ou comprar qualquer coisa.
O movimento PUENTE já tem várias vigílias e atos de desobediência civil planejados se o juiz permitir que a lei entre em vigor.
Enquanto isso, Amparo e seu marido, José de Jesus, passam garrafas de água para seus convidados sob o sol escaldante da tarde em Arizona.
“Queremos nos unir para nos livrarmos da polícia. Muitas pessoas estão com medo”, diz Amparo. Há alguns meses, uma nova delegacia foi aberta perto da igreja e do parque. Mas apesar de oferecer segurança, está fazendo as pessoas terem medo por causa da nova lei.
Omar reclama que nos últimos meses, o mesmo policial o prendeu três vezes, e apreendeu seu carro todas as vezes.
Os encontros de vizinhos ajudam as pessoas a não se sentirem impotentes. Pessoas de todas as partes do país vieram visitá-los para ajudar.
Mas para Omar, é uma faca de dois gumes.
“Quanto mais unidos estivermos, melhor. Mas ao mesmo tempo, quanto mais unidos estivermos, mais visíveis estamos nos tornando para a lei”, diz o guatemalteco.
Depois que o governo federal e uma coalizão de grupos de direitos civis apresentaram argumentos para invalidar partes da lei, todos colocaram suas esperanças nas mãos da Juíza Susan Bolton.
Em 28 de julho, Bolton bloqueou a maioria dos trechos controversos da SB 1070.
As cláusulas que exigiam que os policiais checassem o status de imigração de uma pessoa enquanto executando outras leis; que exigiam que os imigrantes carregassem seus documentos o tempo todo; e tornavam ilegal para os trabalhadores indocumentados pedir emprego em locais públicos, serão colocadas em suspenso até que sejam resolvidas no tribunal.
Na sua decisão, a Juíza Bolton determinou, “Há uma possibilidade substancial de que policiais prendam erroneamente estrangeiros residentes legais sob a nova lei”.
“Ao colocar em prática esse estatuto”, disse ela, “Arizona imporia um fardo ‘distinto, incomum e inesperado’ nos estrangeiros residentes legais, que somente o governo federal tem a autoridade para impor”.
Mas com ou sem a lei, a perseguição de imigrantes indocumentados no Arizona pode continuar nas mãos do Xerife Joe Arpaio, que disse estar planejando conduzir uma batida policial em 29 de julho.
O controverso xerife, que está sob investigação pelo uso de discriminação racial em suas operações, também abriu uma seção especial ao ar livre na sua tão chamada “Tent City”, onde vai manter os imigrantes indocumentados que prender.
“Essa lei ainda nem entrou em vigor e a comunidade já está devastada”, diz Luis Fernández, membro da Repeal Coalition.
Por quase um ano e meio, o grupo organizou comunidades de imigrantes em nível de vizinhança. Ele também visita familiares presos, os conecta com advogados e os acompanha até o tribunal.
“Infelizmente, há uma grande necessidade. O que estamos fazendo é uma gota d’água no oceano”, diz ele. “A atmosfera está extremamente polarizada no Arizona e isso já está se expandindo nacionalmente.
Acredito que o que estamos experimentando será sentido em outros lugares, especialmente em novembro [durante as eleições].”