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SÉRIE SONHO AMERICANO- A História de Maria Lima

Este post também está disponível em: Inglês, Espanhol

Por Abigail Delgado

Traduzido por Frederico Alberti

 

Maria Lima estava esperando por mim no restaurante onde combinamos de nos encontrar, e abriu um grande sorriso assim que me viu. Ela é uma mulher nos seus 40 anos, com olhos que revelam o peso de cem anos. Ofereci-lhe um café e como uma boa brasileira, ela disse sim, e pedimos café, pão de queijo e biscoitos. Maria começou a me contar sua história. Sua voz era alta, mas eu não me importei e nem ela; ela quer que o mundo ouça o que tem a dizer. Quer que o mundo saiba para quê ela veio para os Estados Unidos. Não se importa se as pessoas souberem que a vida dela não era perfeita e quer que saibam quem é Maria Lima e por que ela luta por suas convicções e por seu sonho americano.

Maria nasceu no estado da Bahia, Brasil. Ela tinha 11 irmãos, e seus pais não tinham recursos para cuidar deles. Quando Maria completou cinco anos, ela foi entregue para adoção. No entanto, a mudança não rendeu a ela o futuro brilhante que seus pais imaginaram. Ela teve que começar a trabalhar quando tinha seis anos e depois de muitos dias longos e dor, com 16 anos, ela foi capaz de voltar a viver com sua mãe biológica. Ela terminou o Ensino Médio, na esperança de que o futuro brilhante um dia viesse.

“Eu coloquei na minha mente [a ideia] de que a melhor coisa que poderia fazer era estudar e sonhar em me tornar juíza um dia; por alguma razão, eu queria encontrar uma maneira de dar justiça àqueles que sofrem”, disse Maria.

Maria se casou e teve dois filhos, Barbara e Farid. Seu casamento acabou depois de alguns anos, e ela quis encontrar uma maneira de dar a seus filhos uma vida estável. Para isso, ela se matriculou na faculdade para se tornar advogada. Quatro anos de enormes sacrifícios se passaram e Maria ficou sem dinheiro para a mensalidade. “Eu não conseguia ficar em dia com os meus pagamentos”, contou. “Estava a um ano de obter meu diploma e um amigo meu, que morava nos Estados Unidos, sugeriu que eu viesse trabalhar por um tempo para juntar o dinheiro que precisava para terminar meu curso.”

Em 2007, com o coração partido, Maria deixou seus filhos no Brasil e chegou em Danbury para ficar na casa de seu amigo. “Me senti horrível, culpada por deixá-los, e me perguntei muitas vezes se estava fazendo a coisa certa. Eu me senti a pior pessoa do mundo, mas sabia que estava vindo para cá por eles”, lembra ela, enquanto enxuga as lágrimas dos olhos.

Maria começou trabalhando como faxineira para pessoas diferentes, mas ela nunca vai esquecer da sua primeira experiência. “A mulher me disse que ia me pagar US$ 20 para cada casa que limpasse e, como não tinha qualquer conhecimento de valores por hora, aceitei. No final da semana, essa mulher disse que me pagaria apenas US$ 10, alegando que eu não era boa o suficiente”, contou. “Eu disse a ela que não era ignorante, e que não vim aos Estados Unidos para ser explorada por ela”. Depois de meses de trabalho duro, de domingo a domingo, Maria percebeu que não ia conseguir economizar dinheiro suficiente para pagar suas despesas nos Estados Unidos, as de seus filhos no Brasil e guardar um pouco para pagar os estudos. A frustração e tristeza por estar longe de seus filhos começaram a se instalar. “Chorava todas as noites, e comecei a me sentir mal, com terríveis dores de cabeça”, acrescentou Maria, que não podia mais suportar esta situação e decidiu pedir ao ex-marido para ajudá-la a trazer seus filhos para os Estados Unidos.

Para seu alívio, Barbara e Farid chegaram aos Estados Unidos em 2008 e os objetivos e sonhos dela mudaram. Ela agora sonhava com um futuro melhor para eles neste país. Sonhava com suas mensalidades da faculdade. “Eu esqueci de mim e vivi para eles”, disse. “Comecei a aceitar toda a exploração dos meus empregadores, pois precisava do dinheiro para sustentar a minha família.”

Maria encontrou o amor de novo e se casou, e seus filhos terminaram o Ensino Médio e iniciaram a faculdade. Sem crianças em casa, Maria encontrou tempo para perseguir seus próprios sonhos novamente. Ela não queria desistir de seu desejo de levar justiça àqueles que sofrem.

Maria não sabia como alcançar esse objetivo aqui nos Estados Unidos, até que participou de uma conferência organizada pelo Centro do Imigrante Brasileiro e se envolveu com a organização como voluntária. Lá ela aprendeu sobre o projeto de lei 446, uma proposta para apoiar os direitos dos trabalhadores domésticos. Para Maria, essa era a luz que procurava há muitos anos. “Assim que comecei no Centro, fui para Hartford dar o meu testemunho na frente de deputados e representantes do Estado sobre minhas experiências como trabalhadora doméstica, como era explorada e como queria justiça”, lembrou Maria, que mais tarde foi contratada para trabalhar no Centro do Imigrante Brasileiro como ativista dos direitos dos trabalhadores domésticos.

Hoje, Maria pode dizer que alcançou muitos de seus sonhos. Ela tem sua família por perto, seus filhos são profissionais conquistando seus próprios objetivos e vive em um país que, apesar das dificuldades, tornou tudo isso possível. Ela defende os direitos daqueles que são explorados, mas ainda acredita em seu sonho de menina. “Meus sonhos foram colocados de lado por meus filhos, mas agora estou determinada a melhorar o meu inglês e voltar para a faculdade para me tornar a advogada e juíza que sempre quis ser, mesmo que eu tenha que estudar pelo resto da minha vida.”

 

 

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